Recomeça....
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...
Ensinaram-me as coisas importantes Que afinal o não eram. Acumularam-me de conhecimentos De que ainda me liberto. Ditaram-me no caderno de duas linhas Os exemplos que procuro não seguir. Fizeram-me ler as histórias de santos, sábios e heróis, Que eu não quero ser nem imitar. Soube de cor as constelações Que hoje se escondem no fundo das cidades. Ensinaram-me a pescar nos rios e regatos Em que bóiam as garrafas de plástico. Quando eu sabia tudo Atiraram-me para a vida de que eu não sabia nada E onde tudo era ao contrário do que aprendera. Habituei-me a raciocinar pelo contrário. Não era feliz, era desarmado. E tive de aprender, de novo, Tudo o que me haviam ensinado E que eu queria não ter aprendido.
Era uma vez, lá na Judeia, um rei. Feio bicho, de resto: Uma cara de burro sem cabresto E duas grandes tranças. A gente olhava, reparava e via Que naquela figura não havia Olhos de quem gosta de crianças.
E, na verdade, assim acontecia. Porque um dia, O malvado, Só por ter o poder de quem é rei Por não ter coração, Sem mais nem menos, Mandou matar quantos eram pequenos Nas cidades e aldeias da nação.
Mas, por acaso ou milagre, aconteceu Que, num burrinho pela areia fora, Fugiu Daquelas mãos de sangue um pequenito Que o vivo sol da vida acarinhou; E bastou Esse palmo de sonho Para encher este mundo de alegria; Para crescer, ser Deus; E meter no inferno o tal das tranças, Só porque ele não gostava de crianças. (Miguel Torga)
Olho para ti Sorrio para ti Chamo pelo teu nome… Tento alcançar-te, tocar-te e abraçar-te E nos teus segredos não me encontras…
Afastas-te…choras…gritas Numa corporeidade ausente de sentido...
Tu…de olhares perplexos e fixos… Num girar rítmico e obsessivo, Entoas estranhas palavras Que, incompreendidas, me sabem a silêncio…
Porque não me ouves? Porque não olhas para mim? Porque te afastas deste meu mundo que também é o teu?
Aflijo-me ao querer encontrar o teu ser… E procuro compreender… Insisto, tento e persisto…Não desisto!
Por fim, numa mesma canção… Encontro a melodia da tua alma… As vibrações do teu coração… O significado das tuas palavras…
Aproximas-te e sinto o teu toque…suave e cauteloso… Ouço a verdade que há em ti Criança autêntica que és… Com desejos de correr, saltar e brincar… Queres estar aqui!
E é então… Que te olho nos olhos e vejo… Que olhas para mim…inocente… Nos teus olhos, estás a sorrir genuinamente…