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quarta-feira, 25 de julho de 2012
Pedra Filosofal
Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.
eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.
Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.
Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.
António Gedeão
Anjo
No início um desejo,
Um desejo sincero da busca de
um encontro para sempre eterno...
O teu sorriso fez-me acreditar
As tuas asas adormeceram-me
E o brilho dos teus olhos fez-me sonhar.
A noite sorriu ao dia
O sonho sorriu à realidade
E tudo aquilo que apenas seria
Tornou-se na mais pura verdade.
A minha alma inquietou-se
Os meus olhos brilharam de alegria
O meu coração quase rasgou o meu peito.
O encanto da vida, num momento perfeito.
* Encontrei os rascunhos deste poema num caderno perdido enquanto fazia arrumações...Escrevi-o há já uns aninhos...25-02-2006
sábado, 19 de março de 2011
O que Aprender?
Ensinaram-me as coisas importantes
Que afinal o não eram.
Acumularam-me de conhecimentos
De que ainda me liberto.
Ditaram-me no caderno de duas linhas
Os exemplos que procuro não seguir.
Fizeram-me ler as histórias de santos, sábios e heróis,
Que eu não quero ser nem imitar.
Soube de cor as constelações
Que hoje se escondem no fundo das cidades.
Ensinaram-me a pescar nos rios e regatos
Em que bóiam as garrafas de plástico.
Quando eu sabia tudo
Atiraram-me para a vida de que eu não sabia nada
E onde tudo era ao contrário do que aprendera.
Habituei-me a raciocinar pelo contrário.
Não era feliz, era desarmado.
E tive de aprender, de novo,
Tudo o que me haviam ensinado
E que eu queria não ter aprendido.
Jacinto de Magalhães
"Entre mim e o outro"
domingo, 26 de dezembro de 2010
Alegre ou Triste
Francamente, não o sei.
A tristeza em que consiste?
Da alegria o que farei?
Não sou alegre nem triste.
Não sou alegre nem triste.
Verdade, não sou o que sou.
Sou qualquer alma que existe
E sente o que Deus fadou.
Afinal, alegre ou triste?
Afinal, alegre ou triste?
Pensar nunca tem bom fim...
Minha tristeza consiste
Em não saber bem de mim...
Mas a alegria é assim...
(Fernando Pessoa)
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
História Antiga

Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.
E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da nação.
Mas, por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.
(Miguel Torga)
domingo, 12 de dezembro de 2010
Corpo Esquecido

Recordo...
A harmonia dos meus passos ao dançar,
Os meus dedos entre as linhas agilmente entrelaçados
A minha voz que docemente te embalava
E a pele do meu corpo...da minha face...
que tu ansiavas por acariciar...por beijar...
Agora...
Nada disto parece verdade...já não sei quem sou...
Não me encontro neste corpo estranho, frágil, doloroso...
...incapaz e sem sentido
A imagem que se reflecte no espelho não é a minha...
Preciso de sentir que ainda existo...Preciso de ti....
Peço-te, então, uma abraço...mas recusas!
Peço-te um beijo, que não tens tempo de dar...
Até o teu olhar se afasta do meu rosto enrugado e feio
Quem serei eu neste corpo esquecido?
Um corpo que todos tocam, sem tocar de verdade...
ausente de afecto...ausente de vontade
Tento, então, chegar a ti...tocar-te e sentir-me em ti...
Mas, tropeço...Caio...Perco-me em tamanha dor
Choro...Grito NÃO! Mas nada...ninguém...
Não me reconheço neste novo ser...
O que se passa? O que está a acontecer?
Estarei eu a morrer?!!
terça-feira, 12 de outubro de 2010
Lágrima de Preta
Encontrei uma pretaque estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.
Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.
Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.
Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.
Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:
Nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio
António Gedeão
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
Sorrisos no Olhar

Olho para ti
Sorrio para ti
Chamo pelo teu nome…
Tento alcançar-te, tocar-te e abraçar-te
E nos teus segredos não me encontras…
Afastas-te…choras…gritas
Numa corporeidade ausente de sentido...
Tu…de olhares perplexos e fixos…
Num girar rítmico e obsessivo,
Entoas estranhas palavras
Que, incompreendidas, me sabem a silêncio…
Porque não me ouves?
Porque não olhas para mim?
Porque te afastas deste meu mundo que também é o teu?
Aflijo-me ao querer encontrar o teu ser…
E procuro compreender…
Insisto, tento e persisto…Não desisto!
Por fim, numa mesma canção…
Encontro a melodia da tua alma…
As vibrações do teu coração…
O significado das tuas palavras…
Aproximas-te e sinto o teu toque…suave e cauteloso…
Ouço a verdade que há em ti
Criança autêntica que és…
Com desejos de correr, saltar e brincar…
Queres estar aqui!
E é então…
Que te olho nos olhos e vejo…
Que olhas para mim…inocente…
Nos teus olhos, estás a sorrir genuinamente…
Sorrio para ti
Chamo pelo teu nome…
Tento alcançar-te, tocar-te e abraçar-te
E nos teus segredos não me encontras…
Afastas-te…choras…gritas
Numa corporeidade ausente de sentido...
Tu…de olhares perplexos e fixos…
Num girar rítmico e obsessivo,
Entoas estranhas palavras
Que, incompreendidas, me sabem a silêncio…
Porque não me ouves?
Porque não olhas para mim?
Porque te afastas deste meu mundo que também é o teu?
Aflijo-me ao querer encontrar o teu ser…
E procuro compreender…
Insisto, tento e persisto…Não desisto!
Por fim, numa mesma canção…
Encontro a melodia da tua alma…
As vibrações do teu coração…
O significado das tuas palavras…
Aproximas-te e sinto o teu toque…suave e cauteloso…
Ouço a verdade que há em ti
Criança autêntica que és…
Com desejos de correr, saltar e brincar…
Queres estar aqui!
E é então…
Que te olho nos olhos e vejo…
Que olhas para mim…inocente…
Nos teus olhos, estás a sorrir genuinamente…
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